Um dos trinta poemas moribundos de amor.

Pergunte-me se ando contente com a minha partida que rebato com o questionário que lhe foi feito antes dessa merda toda. Longe de você que eu tanto prezava, eu, que vivia perambulando a vida como figurante agora faço história!
Nessa história você é meu cigarro apagado, um trago da cachaça para macumba, a sidra quente, uma ida a um puteiro sem um conto no bolso.
Faço história com nossa ínfima desgraça e não lhe dou um minuto de meu agora precioso e ocioso tempo a recordar o nosso lenitivo mais sonhado.
Lembro-me muito bem onde você depositava suas diversões, toda noite eu ia lá e lhe roubava uns três sacos de euforia, roubava não, eu recuperava meus vinte anos em meus sonhos infantis.
Você nunca deu falta de nada, nunca soube de onde veio aquilo tudo, já estava com tanta graça, que andava com se estivesse à beira de um orgasmo oriental.
Teus medos foram banais por isso que te escrevo, admiro de longe sua paralisia sentimental.

Lembra da praça? Sim, a velha praça que fizemos a paixão nos degraus da estrada. Aquela praça de cores vazia onde nenhum agente entorpecido ou marginal se atreveu a tagarelar suas rimas de amor. Lá onde ficávamos a espera de um anjo embriagado para jurar mentiras rumo ao Apocalipse.

Lembre-se desse fragmento vazio e cuspa três vezes no espelho!

Lembra-se do que lhe foi dito e do que foi dito por você? Lembra-se de minhas palavras loucas, estando nobremente condenado e obediente a toda garra e abismo de possuí-la por um monte de noites cheirando as sobras melada de teu pranto?

Lembre-se desse instante e cuspa três vezes em minha cara!

Cuspa nossas lembranças, não estou a me orgulhar de você que é tão distante do pecado, não te vejo como santa nem com Puta, mais a última lembrança que te tenho não me causa nem a mera expressão da natureza!

Lembre-se da cuspida
Lembre-se da última hora
Lembre-se de meu sorriso soluçado

Pois é assim que te vejo mais linda
Nua e cega na cama com os cotovelos machucados
E sua pele branca reflectindo da janela o luar que te banha as costas
Assim que guardo tua lembrança em meus sonhos – Entregue inteiramente a mim!

4 comentários:

Alpa Zen disse...

Putz meu(rs), você parece que faz de propósito.Ou não é? Quer arrancar lágrimas alheias a qualquer custo? Pois eu digo, isso é muito válido...

abraço no coração

Leonardo Vieira disse...

fala will.. blz rapaz?
por enquanto tudo que escrevi foi rascunho do que eu realmente queria escrever..

curti seus textos, abração.

Kamila Zanetti disse...

pra esse até fiquei sem palavras.perfeito.

Unknown disse...

"Pois é assim que te vejo mais linda
Nua e cega na cama com os cotovelos machucados
E sua pele branca reflectindo da janela o luar que te banha as costas
Assim que guardo tua lembrança em meus sonhos – Entregue inteiramente a mim!"
Além da extrema beleza estética do texto e a apurada escolha vocabular, este final foi divino... Todo um poema carregado de amargura se converte em uma onda sentimental... uma espécie de epifania de Clarice com aquele tom de Neruda...
Impossível ainda não se localizar em algum ponto do texto. Mas, mais impossível, por mais redundante do que se possa parecer, é não visualizar a cena desta estrofe: costas, cotovelos machucados, a visão de alguém de pé, a lua a brilhar nas costas... Uma das mais belas imagens acústicas que conheci...
Bom, deixo expressa aqui minha admiração por seu trabalho... e tomo a liberdade de copiar o texto (com os devidos créditos) para usá-lo...